Num modelo de rede, ao contrário do que se passa com as simulações por dinâmica molecular, não estamos interessados no detalhe à escala atómica. Assim, a proteína é representada apenas pela cadeia principal de aminoácidos e cada um destes por uma esfera colorida que o identifica do ponto de vista químico. As esferas ocupam os nodos da rede (quadrada ou cúbica) e as ligações peptídicas entre os aminoácidos ao longo da cadeia dispõem-se segundo as arestas da rede (ver figura seguinte).
Dentro da classe dos modelos de rede, o modelo H-P (em inglês, Hydrophobic-Polar), que é um dos mais simples, tem como objectivo principal explorar o papel das interacções entre os aminoácidos e as moléculas de água durante o processo de folding.
Como já vimos os aminoácidos podem ser classificados em hidrofóbicos - se não gostam de água - ou polares - se gostam de água. No que se segue veremos que, até mesmo sem fazer qualquer simulação computacional, é possível identificar alguns aspectos importantes do problema do folding recorrendo a este modelo numa rede bidimensional. Comecemos por considerar a figura abaixo na qual a proteína (na realidade um pequeno péptido com alguns aminoácidos apenas) "vive" numa rede quadrada.
Vejamos agora o que podemos aprender com este modelo. Na figura abaixo estão representadas cinco conformações diferentes e as respectivas energias. Conformações diferentes podem ter energias diferentes (como é o caso de ε1, ε2, ε3) mas também podem ter a mesma energia (por exemplo, ε4 e ε5). Quando duas conformações diferentes apresentam a mesma energia dizem-se degeneradas.
Para além da degenerescência, estes exemplos servem para ilustrar um fenómeno ainda mais interessante, o fenómeno da frustração. Consideremos os aminoácidos 5 e 7 bem como os seus vizinhos nas conformações ε4 e ε5, respectivamente. Em ε4 o aminoácido 5, que é hidrofóbico, está em contacto com o aminoácido 8 da mesma espécie, numa interacção que é favorável a ambos já que se trata de uma interacção que é estável do ponto de vista energético. Já os aminoácidos 6 e7 não estabelecem qualquer interacção de contacto, e o aminoácido 4 estabelece uma interacção de contacto neutra (com energia igual a zero) com o aminoácido 1. Por outro lado, na conformação ε5, os papéis invertem-se e é o aminoácido 7 que passa a interagir favoravelmente com o aminoácido 4, passando os aminoácidos 5 e 8 a estar desestabilizados.
Diz-se que existe frustração, porque ao competirem entre si pelas posições que minimizam a energia de interacção com os seus vizinhos, os aminoácidos não conseguem ficar totalmente estabilizados - não ficam igualmente 'satisfeitos' com todos os seus parceiros de interacção - em conformações que têm a mesma energia total.
Estes exemplos mostram que, sem fazermos qualquer cálculo analítico (sem fazermos "contas"!) ou simulação computacional a degenerescência e a frustração são dois ingredientes fundamentais da energética do folding.